segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Bordados de Castelo Branco


Antes de serem conhecidos pelo nome que lhe damos hoje em homenagem à cidade de Castelo Branco, local onde existia uma grande produção de linho, eram conhecidos por “Bordado Albicastrense” ou “Bordado a Frouxo”.
As suas raízes históricas estão por apurar, mas as influências de motivos da China e Índia é inegável, quando admiramos alguns exemplares desta arte.
Alguns investigadores vêm na realização das colchas, o ponto alto destes bordados, um aspeto simbólico. As raparigas em idade de casar exibiam as suas colchas nas janelas que davam para a rua afim de cativar potenciais pretendentes. Eram peças de enxoval das raparigas, porém foram utilizadas num primeiro momento nos dias de festa e posteriormente começaram a integrar o quotidiano das famílias. Também existem teses que apontam fortes ligações com os lenços de namorados, evidenciando os motivos desses bordados como elos de ligação.
A Mocidade Portuguesa Feminina fundou uma escola de bordados (1940) , uma vez que esta atividade estava a gerar um grande interesse na zona, nessa época. A data coincidiu com a exposição de colchas (1941) acabando por encerrar as portas para reestruturação anos posteriores (1945).
Em 1956, é criado o centro de Indústrias Regionais da Mocidade Portuguesa Feminina (MPF). Que tinha dois objetivos, um a nível social e outro cultural.
Após o 25 de Abril, a MPF foi suprimida e a perpetuidade do centro tinha pouco interesse. Todavia, o interesse da Comissão Liquidatária da MPF, da Direção Geral dos Assuntos Culturais de S.E.C., e das próprias bordadoras que se submetiam a trabalhar em condições precárias e difíceis, viabilizaram a criação da oficina – Escola de Bordados Regionais, incorporada no Museu Tavares Proença Júnior, na cidade de Castelo Branco.

Atualmente a oficina assume que a escola tem uma filosofia implícita, vê o passado destes bordados como um património importante e que deve ser preservado. No entanto, considera que a oficina isto é a escola do museu não deve situar-se somente nas replicas da produção antecedente, mas deverá sim ser um ponto de partida aos artesãos contemporâneos.

O apelo à inovação é imperativo e já em 2009, Ana Pires geógrafa, que participou no Encontro "Conversas preenchidas a ponto de Castelo Branco", que juntou diversos especialistas no Museu de Francisco Tavares Proença Júnior.
"Para uma pessoa que tenha informação, percebe que os desenhos foram abusivamente manipulados. Misturaram-se coisas que não se deviam misturar e misturaram-se mal, a qualidade do próprio desenho é genericamente muito fraca e entendemos que devia haver abertura para a inovação e não há razão para não se fazer", conclui Ana Pires.



São utilizados vários pontos neste tipo de bordado, entre eles o ponto de cadeia ou o ponto pé de flor. O ponto que deu origem a um dos nomes deste bordado foi o “ponto a frouxo”. São utilizados fios de seda, sob linho.
Para se poder bordar o linho, é necessário que este esteja bem esticado num bastidor.
Existente várias colchas, carregadas de simbologia algumas delas apresentam:
· O lar simbolizando a árvore da vida;
· Os pássaros que representam os desposados;
· O Homem e a Mulher simbolizados pelo cravo e pela rosa;
· Os lírios que alegam a Virtude;
· Os corações, significavam sem dúvida o amor.

PINTO, Clara Vaz – Bordado de Castelo Branco Catálogo de Desenhos de Colchas , Ed. Instituto Português de Museus,Museu Francisco Tavares Proença Júnior, Lisboa, 1992
Silva, Paulo - Bordados Tradicionais Portugueses, Universidade do Minho, 2006
http://www.cm-castelobranco.pt

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Caretos Podence



Para além de uma tradição, são o símbolo de uma cultura do Nordeste de Portugal, os Caretos são sem dúvida um dos grupos mais emblemáticos de Portugal. Teve inicio em 1985 dentro de uma associação cultural que tinha como objetivo preservar a tradição carnavalesca, assumindo-se como um grupo etnográfico constituído por 20 elementos, todos homens.
Na aldeia transmontana de Podence, situada no Nordeste de Portugal, o período de Carnaval é marcado pela presença dos Caretos, figuras mascaradas que usam mascaras e vestem-se com fantasias particulares (casaco e calças de lã coloridas, no passado lã de ovelha tingida artificialmente, tecido numa manta de serapilheira talhada para o efeito, uma mascara hoje de lata, no passado de madeira ou couro). A expressão Careto é usada noutras regiões para designar mascarados que podem surgir noutros períodos do ano assim como o Natal, Santo Estevão, Reis e que podem emergir nas chamadas Festas dos Rapazes do Ciclo de Inverno.

Uma das particularidade dos Caretos é o seu movimento coreográfico bastante sexualizado em que o Caretos, abraçando a sua “vítima” feminina e atingindo-a repetidamente nos rins com golpes repetidos dos chocalhos, que, giram, pendentes da sua cintura. Movimento esse a que se chama “chocalhar”. Os Caretos, nesta ocasião, afirmam-se como “donos” dos espaços públicos e mesmo dos privados, que ocupam com cumplicidade ou passivo consentimento dos seus moradores. Ao Careto tudo é permitido nesses dias, assumem uma dupla personalidade. Ao vestir o fato e colocar a mascara o seu comportamento muda e tudo lhe é permitido, sátira social, exageros.


O mundo de som, fúria, cor e movimento para que nos remetem incutem em cada um de nós o misticismo e a envolvente deste Carnaval tão particular.
Temos as portas abertas para entrar num universo de raiz profana e carnal, o verdadeiro motivo que move os Caretos é apanhar as raparigas para as poder “cocalhar”, num exagero de atos e folia. Despedem o Inverno e dão as Boas Vindas à Primavera num ritual ainda inserido nas festividades cíclicas de inverno.


Os caretos tem percorrido Portugal, assim como contam com várias participações internacionais, são objeto de estudo etnográfico e antropológico em várias universidade e as suas participações nos mídia tem aumentado gradualmente nestes últimos anos.


Fonte:
OLIVEIRA, Ernesto Veiga de. Festividades Cíclicas em Portugal. Lisboa: D.
Quixote, 1984.
PEREIRA, Benjamim. Máscaras Portuguesas: Junta de Investigação do
Ultramar. Lisboa: Museu de Etnologia do Ultramar, 1973.
PESSANHA, Sebastião. Mascarados e Máscaras Portuguesas. Lisboa: Ferrin,
1960.
RAPOSO, Paulo. O Papel das Performances Culturais na Contemporaneidade:
Iden t id ade e Cu l tu r a Popu l a r. 2003 . D i s se r t a ç ão (Dou to r ado em
Antropologia) – Instituto Universitário de Lisboa, Lisboa, 2003.

http://caretosdepodence.no.sapo.pt
Fotos:http://caretosdepodence.no.sapo.pt



Os Caretos de Podence

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Guitarra Portuguesa

Guitarra Portuguesa, 1890

A Guitarra Portuguesa assume um lugar de destaque no imaginário do que se pode chamar a identidade nacional portuguesa, como um símbolo, uma referência sempre presente no nosso imaginário e memória coletiva, quase sempre associada também ao fado e a saudade.
A sua origem direta encontramos um modelo de Cítara europeia conhecida em Portugal desde o século XVII, filiada na Cítola medieval e referida várias vezes na literatura e também em algumas representações iconográficas.
A Guitarra Portuguesa e a citara a partir do século XIX e ainda que apesar de muitas referencias em dicionários da especialidade como dois instrumentos distintos, tende a confundir-se sob a mesma designação vindo a adotar graduadamente elementos acessórios de um e outro instrumento.
A desqualificação social da citara é uma evidência segundo dados históricos apurados desde inícios do século XIX, o que levou a ser o instrumento ideal para acompanhar o fado.
Com a sua nova designação de Guitarra Portuguesa, começa a ser de forma gradual reabilitada e chega a entra novamente nos salões burgueses e palácios aristocráticos na segunda metade do século.
Na década de setenta a Guitarra Portuguesa populariza-se de norte a sul do país juntamente com o fado, sendo o seu uso obrigatório no seu acompanhamento aos tocadores ambulantes que frequentam feiras e romarias nacionais.
Segundo Pedro Caldeira Cabral uma das referências nacionais e que se tem dedicado também à investigação “ Segundo testemunhos recentes recolhidos por mim na Beira Alta e em Trás-os-Montes, estes tipos mais arcaicos sobreviveram até aos anos 30, nas mãos de moleiros e de artesãos carpinteiros que, nas horas vagas e em dias de festa, reuniam à sua volta verdadeiras tertúlias de poetas-cantadores de fados e romances, improvisando também cantos ao desafio.
Com o incremento do fado e das guitarradas, promovido pelas companhias de discos e de gramofones na década 20/30 e a sua subsequente difusão por todo o país através da rádio (a partir de 1935), a Guitarra Portuguesa tornou-se um instrumento ainda mais presente nos conjuntos instrumentais próprios das funções de baile, nas rusgas do Minho, nas rondas da Beira Alta, em grupos do Douro e de Trás-os-Montes, reforçando o timbre estridente das violas de arame e poiando o acompanhamento harmónico dos violões. Mas é certamente nas grandes cidades que a Guitarra atinge a sua cotação mais elevada, com a associação ao fado amador dos estudantes de Coimbra e nas mãos dos mais talentosos guitarristas profissionais do fado de Lisboa.”
Guitarra Portuguesa, 1930

Pedro Caldeira Cabral acrescenta ainda que depois da década de 40 aos dias que correm, pouco se fez para modificar os aspetos fundamentais da construção da Guitarra, verificando-se no entanto uma enorme evolução nas técnicas de execução e no reportório, o qual passou das simples guitarradas acompanhadas à viola, para genuínos solos de concerto e peças orquestrais com a guitarra.
A partir da década de 70, assistimos mesmo a uma verdadeiras incursões pela música erudita contemporânea, com emprego pontual de meios eletro-acústicos e de manipulação eletrónica dos sons da Guitarra Portuguesa.

Guitarra Portuguesa, 1969

Segundo o portal da Guitarra Portuguesa temos a seguinte definição “A Guitarra Portuguesa distingue-se dos outros cordofones de mão pela forma e dimensões da sua caixa de ressonância, pelo cavalete móvel em osso, pelas suas 12 cordas metálicas, dispostas em seis pares (ordens ou parcelas), pelo peculiar sistema mecânico de afinação, com o cravelhal metálico em forma de leque, com sistema de tarrachas deslizantes e parafuso sem fim, pela sua afinação única (si; lá; mi; Si; Lá; Ré; ou lá; sol; ré; Lá; Sol; Dó; ) , pela técnica de execução tradicional, com o dedilho especial da mão direita com uso exclusivo das unhas dos dedos indicador e polegar, e, como resultante natural destes fatores, possui uma qualidade sonora com características tímbricas e expressivas distintamente individualizadas.”

Temos em Portugal na Escola Superior de Artes Aplicadas (ESART) em Castelo Branco é a única instituição no mundo a oferecer um curso superior de guitarra portuguesa. Desconhecida para muitos, embora existe há quatro anos e é motivo de orgulho para os estudantes, que conta com 7 alunos. 
http://www.ipcb.pt/
http://www.guitarraportuguesa.org
www.pedrocaldeiracabral.com

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Scovandeli, Homem Único

Foto: M

Elisabete e Vasco são o casal luso-descendente, filhos de emigrantes Portugueses, que deu vida e alma à marca Scovandeli, Homem Único. Cada cliente é único e este é o ponto de partida para o trabalho deste casal.
Influenciados pela cultura Portuguesa e pelos valores que lhe foram transmitidos pela família, fizeram a ponte entre as duas culturas.
Esta marca é um projeto de um jovem casal empreendedor mas também é o resultado do seu acumular de experiências que assentam nas raízes que nos remetem para o povo Português que tão bem sabe aliar o trabalho ao empenho e à dedicação e acima de tudo ao saber fazer.
Scovandeli apresenta uma linha masculina “Homem Único” e já têm na sua montra um protótipo para a linha feminina, que brevemente terá um espaço na loja.
Os tecidos são Italianos e a mão de obra é Portuguesa, Elisabete e Vasco pesquisaram criteriosamente os ateliers do norte de Portugal para integrarem este projeto. Pois não seria de esperar outra coisa, uma vez que este desafio aposta no pronto-a-vestir “único” e é o fio condutor de toda a sua filosofia que aposta nas produções de atelier de peças de vestuário em quantidade limitada.
Quem vive em Paris ou quem passa por cá não pode deixar de conhecer esta nova loja bem perto da Torre Eiffel aqui encontra a oportunidade única de poder escolher o fato que sempre sonhou.

Scovandeli, Homem Único
71 da avenue Bosquet
75007 Paris  

 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Bordado de Guimarães

Toalha de mesa, pormenor
Século XX, 2º quartel


Porque Guimarães esta em destaque e em homenagem a todas as bordadeiras que ainda hoje continuam a contribuir com os seus trabalhos e a sua dedicação para a visibilidade, de um dos, bordados mais bonitos de Portugal. Deixo aqui um cheirinho do que podem também apreciar em Guimarães. 
O bordado de Guimarães é acima de tudo um produto de um território dito fértil em águas e em terras úberes para acolheram o cultivo do linho. A riqueza natural do território vimaranense vai ser um dos principais fatores que leva à fixação do homem e é esse homem que vai encontrar, na sua perícia e no seu engenho neste território, os meios fundamentais ao cultivo do linho e à feitura do pano.
O linho, é o suporte vulgarmente usado para criar o bordado de Guimarães. Ao linho em terras vimaranenses podemos apontar data longínqua (no foral concedido por D. Henrique a Guimarães, em 1096, este já aparece referido), o mesmo não podemos afirmar em relação ao bordado. Encontramos referências documentais a tecidos bordados existentes em terra vimaranense desde o século X, contudo só no final do século XIX, é que encontrarmos a primeira referência documental a bordados feitos em solo vimaranense.
O «bordado de Guimarães» parece só começar a ganhar alma e visibilidade no final do século XIX, início do século XX. É só nessa altura que se podem encontrar algumas referências as suas raízes.
O bordado de Guimarães entronca no que se designa hoje em dia por «bordado rico», ou isto é, um bordado executado a linha branca habitualmente sobre pano de linho cru e fino, por vezes de origem estrangeira, e no qual são aplicados diversos pontos minuciosa e delicadamente bordados por mãos bem treinadas. O termo «bordado rico» é utilizado ainda atualmente pelas bordadeiras vimaranenses, querendo com ele fazer a diferença entre o bordado atrás descrito – o «bordado rico», e o bordado popular, executado normalmente pelo povo e para o povo. Este «bordado rico» português, fazia-se e usava-se em todo o País, possivelmente com sentidas influências dos bordados de outros países europeus.
Na altura podia destingir-se entre o bordado rico e o bordado popular, executado por senhoras vimaranenses e destinado a ornamentar principalmente roupa de cama e roupa interior, esse bordado rico esteve presente na Exposição Industrial de Guimarães, que decorreu na cidade, decorria o ano de 1884.

 Colete de «rabos» de mulher  / Camisa de homem
 Século XX, 1º quartel  / Século XX, 1º quartel


Na exposição não foram expostas peças usadas pelo povo tais como: a camisa do lavrador, a camisa e o colete de «rabichos» (também designados «rabos») da lavradeira. Apareceu apenas o «bordado rico», e, é a este e aos seus pontos que julgamos ter ido o «bordado de Guimarães» procurar influências e inspiração.
O bordado que hoje se produz em Guimarães, mas também em Felgueiras é a evolução do bordado popular usado nos trajes rurais vimaranenses, desde pelo menos o final do século XIX início do século XX, e que por sua vez foi influenciado pelo bordado rico oitocentista. Atualmente o bordado de Guimarães, tem características bem evidentes e diferenciadoras – nos materiais (suporte e linha), nos motivos, na gama de pontos utilizados, nas cores usadas isoladamente (branco, bege, azul, vermelho e cinzento), na perfeição do desenho e da execução – e um mercado seguro que se pretende venha a ser alargado.




"A Oficina, CIPRL, entidade promotora de certificação do Bordado de Guimarães, apresentou ao INPI – Instituto Nacional da Propriedade Industrial, em 03 de Abril de 2006, o pedido de Registo da Indicação Geográfica “Bordado de Guimarães”, pedido esse que foi publicado no Boletim da Propriedade Industrial em Maio de 2006. Trata-se de uma marca composta de símbolo e denominação, cujo manual de identidade gráfica foi igualmente remetido ao INPI."

Contacto:
A Oficina CIPRL
Av. D. Afonso Henriques, 701
4810-431 Guimarães
Tel. 253 424 700
Fax 253 424 710

email: geral@aoficina.pt
www.aoficina.pt

Informação retirada do Caderno de especificações (Bordado de Guimarães)
Fernandes, Isabel Maria - Bordado de Guimarães renovar a tradição, Campo das Letras,Guimarães